Divórcio e Acompanhamento

11-01-2023

Artigo para o jornal Voz da Verdade 

8 de janeiro de 2023

Um Padre, uma Mediadora e um Casal, desafiados a orientar um workshop intitulado: Divórcio e Acompanhamento, que integrou o leque de workshops que emolduraram o último Congresso Teológico-Pastoral, no dia 5 de Outubro de 2022, com o título "A vocação ao Amor e à Santidade dos jovens e das Famílias".

Elaborado por Susana Silva, Mediadora de conflitos Familiares, com a colaboração do Cónego Rui Pedro Trigo de Carvalho e do casal Maria José Costa (Zézinha) e Paulo Alves

O fracasso de um projeto, deixa-nos sem chão e completamente desorientados e por vezes vazios. Que sentido? Que rumo dar? Muita vontade de fugir... Uma dor dilacerante que também Jesus a experimentou, quando separado se dirige ao Pai: Meu Deus, meu Deus, porque Me Abandonaste?

Neste workshop, o objetivo não era tanto o de dar respostas, mas suscitar as perguntas necessárias para proporcionar um diálogo reflexivo e uma escuta ativa e empática entre os participantes, conscientes que o tema não se iria esgotar naquela hora. Uma oportunidĺade para trazer à comunhão, um tema por muitos escusado, mas que atualmente é demasiado grande para ser ignorado. O Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, lançou pistas sobre como abordar este tema e fomentar em nós o desejo de acompanhamento pastoral, onde cada irmão, encontre o rosto misericordioso de Deus.

O termo divórcio no contexto da Igreja Católica, isto é, segundo a jurisdição canónica, é uma contradição. Contudo na jurisdição civil encontra sentido, uma vez que se trata da rescisão de um contrato de casamento, permitindo deste modo, poder estar presente neste workshop na qualidade de Mediadora.

O contributo do casal Zézinha e Paulo foi de enorme importância, uma vez que puderam na primeira pessoa e com enorme propriedade, apresentar a sua experiência. Casados desde 2007 pelo registo civil e pela Igreja desde 2016, depois de decretada a nulidade do primeiro matrimónio de Paulo, partilharam o seu testemunho de um percurso marcado pelo sofrimento e exclusão por parte da comunidade católica. Hoje - afirma Paulo - sinto-me um pouco como o filho pródigo que volta a casa e que o Pai o recebe e dá-lhe um abraço. É sentir este amor profundo e pleno. Mas nem sempre foi assim: no momento da separação foi muito complicado porque eu não estava à espera. Quando casei, pensei que era para toda a vida. O momento da separação e do divórcio foi um momento com muita dor. Senti-me um bocado perdido. Estive três anos sem estar com a minha família. (...) às vezes, ia a caminho do trabalho e dizia: «Quem me dera ter aqui um acidente e que morresse para acabar este sofrimento...».

Algum tempo depois, Paulo e Zezinha, conheceram-se e após uma crescente amizade a união foi consequente. Contudo - afirma Zezinha - quando decidimos ir viver juntos, o mundo desabou. Foi quando me apercebi que, a partir daquele momento, havia uma série de coisas que me seriam vedadas por parte da Igreja. Eu, na altura, estava a fazer o curso de preparação para chefe [de escuteiros] e fui informada de que já não poderia ser investida por causa disso. Ao fim de 14 anos de vivência escutista, para mim foi um choque. Como é que no dia antes eu era um bom exemplo para os jovens e no dia seguinte, deixei de o ser?!

De grande contributo e importância, foi a presença no painel, do Cónego Rui Pedro, que trouxe à reflexão a importância do Acompanhamento e da Escuta enquanto caminho e atitude de toda a Igreja, onde cada família deve ser ouvida com respeito e amor, encontrando companheiros de caminho como Cristo com os discípulos rumo a Emaús. São particularmente válidas para tais situações estas palavras do Papa Francisco: «A Igreja deverá iniciar os seus membros - sacerdotes, religiosos e leigos - nesta "arte do acompanhamento", para que todos aprendam a tirar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Êx 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã̃» (Evangelii Gaudium, 169) (1).

Paulo afirma que se eu tivesse preparado o meu primeiro casamento como deve ser, se calhar não tinha casado, tinha percebido que não estava preparado para casar. E depois do casamento também não houve um acompanhamento da Igreja.

Por outro lado - afirma Zezinha - tem de haver acolhimento da parte da Igreja, e a Igreja não são só os padres. Falta pensar e preparar uma estrutura para acolher as pessoas. Se as pessoas soubessem que os divorciados sofrem, pensavam «será que não se pode acolhê-los», ajudar as pessoas a passar este momento difícil.

Afirmações que refletem o n. 51 da Relatio Synodi, onde se afirma que as situações dos divorciados recasados exigem um discernimento atento e um acompanhamento de grande respeito, evitando qualquer linguagem e atitude que os faça sentir discriminados e promovendo a sua participação na vida da comunidade. Cuidar deles não é, para a comunidade cristã, uma debilitação da sua fé e do seu testemunho a propósito da indissolubilidade matrimonial mas, ao contrário, precisamente neste cuidado ela exprime a sua caridade.

A indissolubilidade do matrimónio, foi outra premissa presente no workshop. Se por um lado a indissolubilidade visa a preservação do vínculo sacramental do matrimónio por parte dos esposos unidos em Cristo, a importância da preparação dos mesmos, para a celebração do Sacramento é premente e cada vez mais necessária. O mesmo é dizer, educar consciências para o Ato Sacramental do Matrimónio que convida à Santidade dos Esposos e à Vocação ao Amor Maior que é Cristo, que através do Sacramento Esponsal habita no meio deles (1+1=3).

O Curso de Preparação para o Matrimónio (CPM) são sessões, meia dúzia de horas - diz Paulo - e quando as pessoas chegam ao CPM já estão decididas. Deve começar-se mais cedo, nas catequeses, nos jovens. Temos conhecimento de paróquias que têm grupos de acompanhamento de casais de namorados. O caminho começa logo aí. Quando fazem o discernimento do casamento já é muito mais refletido, rezado. E mesmo após o matrimónio deve haver algum acompanhamento, afirma Zezinha.

A importância de uma preparação remota salientada pelos Itinerários Catecumenais para a Vida Matrimonial, trazida à reflexão pelo Cónego Rui Pedro foi como a resposta a estas interpelações trazidas pelo casal Zezinha e Paulo, que hoje, juntamente com os seus 3 filhos adotivos, consideram que tem sido um renascer de família (...) sentem que são uma família onde reina muito o amor e isso acaba por ser o elo mais forte do que, o laço biológico.

Zygmunt Bauman, sociólogo polaco, comparava a sociedade atual a uma fina camada de gelo, sobre a qual devemos caminhar de forma acelerada para não a quebrarmos e nos afundarmos. Assim, para sobrevivermos a esta sociedade líquida, precisamos de velocidade.

Para vivermos relações significativas, como é o matrimónio, tal aceleração não é possível, pois a união de esposos é o lugar de pausa para o cuidado mútuo e olhar apreciativo, o lugar do diálogo e da partilha de sonhos. Por outro lado, na sociedade da velocidade, existe uma enorme pressão para a auto-realização pessoal que faz com que coloquemos todas as fichas na carreira profissional e no nosso próprio bem-estar pessoal. Muitos casais queixam-se da falta de tempo e de incentivos para estarem juntos.

Portugal integra o top 5 de países do mundo, com a taxa mais baixa de casamentos, e atualmente volta a ser o país da Europa, com a taxa mais alta de divórcios, ou seja, 9 em cada 10 casamentos, acaba em divórcios. Se em 1960, 9 em 100 divórcios, eram de pessoas casadas pela Igreja Católica, atualmente esse valor é de 49 em 100 divórcios. Além disso, Portugal encontra-se entre os países da Europa que canalizam menos apoios e recursos para políticas de Família.

Muito ficou por abordar neste workshop, mas isso já o sabíamos mesmo antes de o começar. Contudo, aproveitamos para deixar 5 perplexidades, fruto deste momento de partilha:

1.  Que proposta(s) é que enquanto Famílias e Comunidade Católica podemos dar e testemunhar, sabendo que "o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens" (AL 1)?

2. Que atitude pessoal e comunitária podemos tomar perante as consequências da separação ou do divórcio sobre os filhos, que em todo o caso são vítimas inocentes da situação?

3. Tendo em conta os índices e taxas supracitadas, que respostas é que a Igreja Católica pode oferecer a este inverno de vínculos?

4. Enquanto irmãos em Cristo, somos capazes de criar lugares de reconciliação e de mediação (AL 242) onde se dê a devida atenção pastoral, a estas Famílias feridas.

5. Será que se deve pensar num serviço de acolhimento destes casais anterior aos tribunais? *

Interpelação feita por Mons. Duarte da Cunha, pároco de Santa Joana Princesa e assistente da Pastoral da Família do Patriarcado de Lisboa.


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